domingo, 26 de fevereiro de 2017

HERÓI DE ASAS



Herói de Asas


                       O dia era para ser aproveitado e passamos a manhã toda passeando de barco pelo rio. Tudo era muito agradável.
                      Entre matas e quedas d’água se aproveitava cada momento e se apreciava cada detalhe do local, como os peixes que pulavam sobre a água e alguns belos pássaros que mergulhavam em busca de refresco e alimento. Lembro que, ao mergulhar, um deles pegou uma quantidade grande de peixes entre o bico longo e as asas grandes. Eram tantos que um daqueles pássaros chegou a cair dentro do barco e; mesmo tentando desviar, fui levemente ferido no braço pelo seu bico dourado e brilhante. No local do ferimento minha pele ficou brilhando também. Diz a lenda que essa espécie de pássaros são próximas do ser humano e auxiliam, de alguma forma, em algumas dificuldades. Depois de horas navegando foi necessária uma parada para refeição e descanso, mas o que não se esperava era o grande temporal que estava por vir, de um minuto para outro, sorrateiramente, ventos fortes nem esperaram a embarcação chegar à margem e já a empurrava com força sem um local certo para desembarque. Um drama que assustou e tomou conta de todos. A correria e os gritos foram grandes, os que estavam à frente saíram sem grandes problemas, porém muitos tiveram muitas dificuldades para chegar à terra firme, caíam, nadavam, se perdiam e nem sabiam onde estavam. Minha última lembrança no barco foi quando, ao tentar pular no rio, bati com a perna na ponta de uma corda e caí água adentro. Desesperador.
                 Meu olhar agora era outro, via tudo superficialmente. Uma confusão entre estar dentro e fora do rio ao mesmo tempo. Quando em cima percebia que aquela situação se fazia, de fato, complicada e era grande o número de pessoas que ainda não haviam conseguido sair da água, se debatiam e pediam por socorro. Por vezes minha memória falhava e não me lembrava de alguns momentos, parecia uma intensa falha que se recuperava de tempo em tempo e que a cada retorno mostrava um número menor de pessoas dentro da água. E recordo que foi assim incontavelmente até que ninguém estivesse mais na água. Todos estavam seguros, fora de perigo e distantes do grande barco que não resistiu e afundou. Eu estava no alto, com grandes asas um bico reluzente que, a cada mergulho, conseguiram tirar da água todos os que estavam em perigo. Meu braço trazia uma parte que ainda brilhava, ajudei a todos como um grande herói. Virei pássaro.

Gilberto - 26/02/17.