O
Dono da Bola.
Eram
momentos de muita emoção. Encontrar aquele senhor no parque retratava todos os
sonhos de criança e comigo não era diferente.
Hoje,
trinta e dois anos depois, ver em meu filho toda aquela empolgação do passado
me faz muito bem, resgate de uma infância à qual meu pai sempre falava do seu
avô que, por suas palavras, certamente gostava de futebol. Quadros, troféus,
medalhas pelos cantos e reportagens pelas paredes afirmavam isso. Hoje, apesar
tudo mais velho e um pouco empoeirado se tornou mais claro entender tudo o que
eu vivi com aquele senhor de tempos atrás, o carinho, o jeito calmo de falar, o
bom porte físico e o carinho nas orientações com a bola foram marcantes. Mas,
de repente ele sumiu e eu até perguntava ao meu pai sobre aquele homem e, por
vezes, não entendia quando ele falava que tudo era brincadeira, coisas da minha
idade pela empolgação com o futebol. Não sei exatamente quando, mas perdi o
contato com aquele homem ainda na infância quando comecei a entender e me
interessar um pouco pelos mistérios da bola.
Minha
relação com o esporte vem de muito longe, tenho fotografias que me retratam
ainda no berço e segurando, ou pelo menos tentando agarrar, uma bola de
futebol. Algumas outras mostram belas imagens, a bola sempre presente, seja no
quintal, na sala de estar, na escolinha... Já na adolescência e também
treinando em escolas especializadas um fato me chamou a atenção naquelas
imagens de criança, a bola era sempre a mesma, meu pai nunca me falava dela e
também eu nunca perguntei ou me interessei, mas agora é diferente e olhando a
brincadeira, agora como pai, surgiram algumas indagações e muitos momentos vieram
à minha cabeça.
Nunca
consegui visualizar perfeitamente o rosto daquela pessoa misteriosa, às vezes o
dia estava lindo, sem nada que pudesse atrapalhar minha visão, mas o rosto e o
sorriso daquele homem eram sempre recobertos por uma névoa, ele até falava,
gargalhava e interagia em uma brincadeira que parecia gostar muito. Só fui me
dar conta desses detalhes depois de muito tempo.
Quando
estreei em um importante time profissional me sentia muito confortável naquilo
que fazia. Já conquistei diversos títulos e glórias e sempre me lembro de boas
jogadas desde a época de criança. Como a brincadeira é importante na vida da
criança! Se hoje estou bastante maduro tenho a certeza de que não posso
desprezar o passado.
Festa
de mais um título e todos felizes em casa. Meu pai resolveu abrir umas caixas
antigas para rever e mostrar alguns materiais que passaram pela minha vida.
Tinha muita coisa: camisetas e uniformes antigos, cartas de fãs, tênis velhos e
meias que mal cabiam, se quer, nos dedões dos meus pés. Em umas das caixas uma
surpresa para mim, a bola, aquela mesma bola de criança ali, no fundo da caixa
e igualzinha àquela da minha lembrança. Uma marca desconhecida e as cores
pareciam as mesmas, os detalhes dos riscos, umas marcas de chuteira, tudo
aquilo era bem peculiar. Meu pai perguntou se eu me lembrava dela, meio
espantado disse que sim e somente neste momento consegui montar toda uma
história. Meu bisavô foi um grande jogador, confesso que tinha certo conhecimento,
mas nunca tive muita informação sobre ele, nem fotografias havia mais, somente
uma tirada no dia em que ele ganhou um título regional, algo bem amador e que
recobria um grande craque, de bons toques e de muitos clubes. Aquela bola ele
guardou como recordação deste jogo e no dia seguinte desta conquista veio a
notícia de um mal súbito que entristeceu toda a família, um infarto agudo tirou
sua vida, sorrateiramente.
Essa
foto veio como uma flecha em meu pensamento. Aquele mesmo porte físico e
sorriso alegre em um rosto agora bem visível. Era aquele mesmo homem de criança
e que me fazia brincar alegremente com a bola.
Agora
não havia névoas e interrogações. Agora um rosto nítido e que eu não via quando
criança. Um senhor que somente eu encontrava.
Gilberto - 04/07/13.