sexta-feira, 15 de novembro de 2019

SEM DIFERENÇAS. SONHOS QUE NÃO SE PERDEM


Sem diferenças. Sonhos que não se perdem

Igualdade, liberdade e reconhecimento nascem com a pessoa. Desta forma, acreditar em uma vida justa para todos sempre foi o pensamento da pequena Lana. Contudo, visões despropositais se faziam presentes desde cedo. Realidade acentuada e vivida.
Em cada acontecimento se reforçava, cada vez mais, a vontade por uma vida digna, sensata e com melhores condições para se viver a toda sua família e também para as pessoas que conhecia. Mesmo com dificuldades conseguia ver esperança e vislumbrar um futuro baseado na verdade e na uniformidade às pessoas. Não conseguia entender porque tantas diferenças, mas confiava em mudanças e seguia entre percursos que mal sabia como lidar e que a fazia emadurecer e sem se contradizer ao que presumia. Vidas desumanas.
Luquinha era seu grande amigo, tinham a mesma idade e também as mesmas características de vida, muitas dificuldades e relacionamento conturbados com seus pais. Era muito brincalhão e sorridente. Sempre que podiam brincavam juntos e compartilhavam o mesmo desejo de ajudar a outras pessoas, apesar de crianças sonhavam com estes momentos. Em uma tarde os dois vinham juntos da escola e encontraram os pais de Lucas na rua perto de casa, os dois discutiam, se ofendiam e sobrou até mesmo para Lucas que levou um tapa do pai e foi obrigado a ir para casa, chorando mostrava medo e insatisfação com toda aquela situação. Lana foi para casa, eram quase vizinhos, mas o que ela não sabia era que aquele momento em que viu Lucas chorar, devido aos seus pais, era o último em que o veria. Os pais de Lucas não se entenderam mais, cada um foi para um lado e deixaram a casa sem despedidas e avisos. Lucas e a mãe seguiram rumo a outra cidade para a casa dos avôs, distante, sem deixarem vestígios. A Lana coube lamentar e seguir com seus sonhos e saudades do inesquecível amigo.
Tantas contradições e os dias seguiam. Na escola mostrava alegria, mas percebia que muitas situações se repetiam e não eram diferentes da sua, dificuldades e tratamentos longínquos à felicidade e a um sorriso verdadeiro e de alegria. Além das muitas dificuldades a fome era o que mais a preocupava e fazia pensar em soluções, a família era um porto a ser alcançado e; mesmo olhando à sua e a tantas outras de colegas da escola não desistia, sabia que as necessidades poderiam trazer uma realidade além do pensamento e dos discursos. Em muitos momentos não entendia o motivo e os porquês de estar ali entre tantas crianças e histórias que se tão diferentes e outras tão iguais, foram justamente essas diferenças que plantaram esperanças e considerações quanto ao direito e à igualdade. A fome, o abuso de poder, a violência, o desrespeito à pessoa humana cerceavam a garantia do que se queria como dignidade, nada mais se almejava e se pensava além de justiça e de uma realidade verdadeira longe de discursos que fugiam ao que considerava certo. Vida sem limites ao direito de cada um.
Já na adolescência uma luz, aliás começou ali o gosto pelo Direito e por todos os assuntos relacionados. Enxergou o que tanto pretendia, a igualdade e o mesmo tratamento para todas as pessoas, tanto para àquelas que conhecia como também àquelas que sabia que não tinha qualquer forma de contato, mas que poderiam, também, se igualarem em conquistas e direitos voltados à cidadania e à coletividade enquanto cidadãos. Percebia tão cedo o direito como condição de vida, algo que parecia tão simples, porém sempre buscava explicações para o distanciamento entre o que queria e a dura realidade de violência nas famílias, de fome e de vida indigna a muitos seres humanos. Dessemelhanças evidentes e um grande sonho efervescente.
De um lápis à moradia, do lazer ao trabalho, das dificuldades em frequentar a escola ao cuidar da casa e dos irmãos. Um episódio marcante, entre tantos outros, foi o pé enfaixado -  nem tão bem enfaixado assim -, mas que escondia a triste realidade em ter a vestimenta básica. Assim ia para a escola, muitos fatores que se estabeleciam, mas que não deixavam os sonhos e as vontades de lado.
A menina cresceu. Na adolescência o incentivo do professor a fez se apaixonar, ainda mais, por assuntos do curso de Direito, nasceu uma grande inspiração e ideias que se fortaleceram com o passar dos anos. Com muito empenho passou por todos os momentos da educação básica, o curso Direito, no ensino superior, continuava sendo o melhor alvo a conquistar. Inicialmente, devido às dificuldades em ingressar em uma faculdade seus olhos se elevaram ao curso de formação ao Magistério, apesar de certa distância entre os objetivos do curso que realmente queria viu neste curso a oportunidade em estar próxima das pessoas e principalmente da formação infantil. As dificuldades foram grandes e os quatro anos de curso só fortaleceram ainda mais a vontade por uma vida mais justa e mais digna. Mais quatro anos e se formou, também, como pedagoga. Estava disposta a seguir reclamando pelos seus propósitos. Na escola, agora como professora Lana, aprendeu muito sobre o relacionamento humano e viu a importância que o professor tem à formação do aluno. Durante alguns anos lecionando se deparou com uma grande oportunidade e alegria, algo que sempre esteve presente em seu percurso e que jamais esqueceu: cursar Direito em uma faculdade em sua cidade. Passaram-se mais quatro anos, cada disciplina, cada professor, cada colega de curso teve grande importância. Um professor em especial foi muito marcante pela ocasião, recordaram com carinho, afinal, Lana, lá em início de carreira como professora, havia sido sua professora. As ordens se inverteram.
Lana lembrava de cada momento da sua infância, das dificuldades, das injustiças e das indiferenças do passado. Conciliar trabalho e estudos não foi tarefa fácil, mas foi um desafio a ser vencido, tempo, família e percalços do cotidiano se conciliaram e o grande dia de formatura finalmente chegou. A agora doutora Lana avistava todos os propósitos de tempos atrás.
Trabalhos intensos e a dedicação às ações civis, principalmente aquelas relacionadas à dignidade da pessoa e da família, mostravam que todos os sentimentos por justiça e igualdade trouxeram bons resultados, o passado não pode ser mudado, mas com certeza influenciou muito no presente e trouxe justiça e condições de igualdade para muitas pessoas atendidas pela então doutora Lana. Estar presente em audiências, em muitos casos voluntários, em defesa da família, da criança e do adolescente, eram momentos não somente de trabalho, mas também de grande prazer pessoal e intransferível. Uma oitiva, realizada no fórum de sua cidade foi extremamente marcante. Era para ser mais um caso de uma criança injustiçada pela família - abandono, violência, maus-tratos -  e que, com certeza, a conclusão seria favorável a esta. Os jurados já haviam se manifestado, na sala o juiz auxiliar já lera todo o desfecho e aguardava apenas a entrada do juiz titular para proferir a sentença, este entrou à sala e após todos os cumprimentos e tratos formais parabenizou veemente à advogada da parte interessada, doutora Lana, pela dedicação e adorável luta à causa da criança e do adolescente. Abaixo do local onde se encontrava o magistrado, mesmo de um ponto meio distante, a Doutora Lana acompanhava tudo atentamente, agradeceu à vossa excelência, porém, diante mais de uma causa triste não percebeu a aparência e nem os gestos daquele juiz, somente ao final de tudo quando foi cumprimentá-lo pessoalmente, uma praxe daquele tribunal, é que leu a placa com os dizeres ‘Lucas de Assis dos Santos - Juiz Titular’. Neste momento, parte de toda sua infância veio à mente, reencontrou ali seu grande companheiro do passado, da escola e da rua onde morava, o amigo Luquinha, que o destino os distanciou, mas que os anseios e os objetivos da vida os reaproximou. Em meio a choros, diferente daquele do passado, ficaram muito felizes com aquele momento. O sorriso do Luquinha, agora vossa excelência, continuava o mesmo. Muita alegria das duas partes pelo significativo reencontro.
Deste momento muitas risadas, alegrias e fortalecimento de amizade se fizeram. Todos aqueles projetos, ora anteriormente considerados, puderam se tornar reais e beneficiar muitas pessoas.
O acreditar realmente pode fazer a diferença.

* Texto baseado em fatos parcialmente reais.
* Dedicado à cônjuge, pelo empenho e dedicação ao longo do curso ora finalizado.

Gilberto - 15/11/2019.