Herói
de Asas
O dia era para ser
aproveitado e passamos a manhã toda passeando de barco pelo rio. Tudo era muito
agradável.
Entre matas e quedas
d’água se aproveitava cada momento e se apreciava cada detalhe do local, como
os peixes que pulavam sobre a água e alguns belos pássaros que mergulhavam em
busca de refresco e alimento. Lembro que, ao mergulhar, um deles pegou uma
quantidade grande de peixes entre o bico longo e as asas grandes. Eram tantos
que um daqueles pássaros chegou a cair dentro do barco e; mesmo tentando
desviar, fui levemente ferido no braço pelo seu bico dourado e brilhante. No
local do ferimento minha pele ficou brilhando também. Diz a lenda que essa
espécie de pássaros são próximas do ser humano e auxiliam, de alguma forma, em
algumas dificuldades. Depois de horas navegando foi necessária uma parada para
refeição e descanso, mas o que não se esperava era o grande temporal que estava
por vir, de um minuto para outro, sorrateiramente, ventos fortes nem esperaram
a embarcação chegar à margem e já a empurrava com força sem um local certo para
desembarque. Um drama que assustou e tomou conta de todos. A correria e os
gritos foram grandes, os que estavam à frente saíram sem grandes problemas,
porém muitos tiveram muitas dificuldades para chegar à terra firme, caíam, nadavam,
se perdiam e nem sabiam onde estavam. Minha última lembrança no barco foi
quando, ao tentar pular no rio, bati com a perna na ponta de uma corda e caí
água adentro. Desesperador.
Meu olhar agora era
outro, via tudo superficialmente. Uma confusão entre estar dentro e fora do rio
ao mesmo tempo. Quando em cima percebia que aquela situação se fazia, de fato,
complicada e era grande o número de pessoas que ainda não haviam conseguido
sair da água, se debatiam e pediam por socorro. Por vezes minha memória falhava
e não me lembrava de alguns momentos, parecia uma intensa falha que se
recuperava de tempo em tempo e que a cada retorno mostrava um número menor de
pessoas dentro da água. E recordo que foi assim incontavelmente até que ninguém
estivesse mais na água. Todos estavam seguros, fora de perigo e distantes do
grande barco que não resistiu e afundou. Eu estava no alto, com grandes asas um
bico reluzente que, a cada mergulho, conseguiram tirar da água todos os que
estavam em perigo. Meu braço trazia uma parte que ainda brilhava, ajudei a
todos como um grande herói. Virei pássaro.
Gilberto
- 26/02/17.
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