Sem
diferenças. Sonhos que não se perdem
Igualdade, liberdade e
reconhecimento nascem com a pessoa. Desta forma, acreditar em uma vida justa
para todos sempre foi o pensamento da pequena Lana. Contudo, visões despropositais
se faziam presentes desde cedo. Realidade acentuada e vivida.
Em cada acontecimento
se reforçava, cada vez mais, a vontade por uma vida digna, sensata e com melhores
condições para se viver a toda sua família e também para as pessoas que
conhecia. Mesmo com dificuldades conseguia ver esperança e vislumbrar um futuro
baseado na verdade e na uniformidade às pessoas. Não conseguia entender porque
tantas diferenças, mas confiava em mudanças e seguia entre percursos que mal
sabia como lidar e que a fazia emadurecer e sem se contradizer ao que presumia.
Vidas desumanas.
Luquinha era seu grande
amigo, tinham a mesma idade e também as mesmas características de vida, muitas
dificuldades e relacionamento conturbados com seus pais. Era muito brincalhão e
sorridente. Sempre que podiam brincavam juntos e compartilhavam o mesmo desejo
de ajudar a outras pessoas, apesar de crianças sonhavam com estes momentos. Em
uma tarde os dois vinham juntos da escola e encontraram os pais de Lucas na rua
perto de casa, os dois discutiam, se ofendiam e sobrou até mesmo para Lucas que
levou um tapa do pai e foi obrigado a ir para casa, chorando mostrava medo e
insatisfação com toda aquela situação. Lana foi para casa, eram quase vizinhos,
mas o que ela não sabia era que aquele momento em que viu Lucas chorar, devido
aos seus pais, era o último em que o veria. Os pais de Lucas não se entenderam
mais, cada um foi para um lado e deixaram a casa sem despedidas e avisos. Lucas
e a mãe seguiram rumo a outra cidade para a casa dos avôs, distante, sem
deixarem vestígios. A Lana coube lamentar e seguir com seus sonhos e saudades
do inesquecível amigo.
Tantas contradições e
os dias seguiam. Na escola mostrava alegria, mas percebia que muitas situações
se repetiam e não eram diferentes da sua, dificuldades e tratamentos longínquos
à felicidade e a um sorriso verdadeiro e de alegria. Além das muitas
dificuldades a fome era o que mais a preocupava e fazia pensar em soluções, a
família era um porto a ser alcançado e; mesmo olhando à sua e a tantas outras
de colegas da escola não desistia, sabia que as necessidades poderiam trazer
uma realidade além do pensamento e dos discursos. Em muitos momentos não
entendia o motivo e os porquês de estar ali entre tantas crianças e histórias
que se tão diferentes e outras tão iguais, foram justamente essas diferenças
que plantaram esperanças e considerações quanto ao direito e à igualdade. A
fome, o abuso de poder, a violência, o desrespeito à pessoa humana cerceavam a
garantia do que se queria como dignidade, nada mais se almejava e se pensava
além de justiça e de uma realidade verdadeira longe de discursos que fugiam ao
que considerava certo. Vida sem limites ao direito de cada um.
Já na adolescência uma
luz, aliás começou ali o gosto pelo Direito e por todos os assuntos
relacionados. Enxergou o que tanto pretendia, a igualdade e o mesmo tratamento
para todas as pessoas, tanto para àquelas que conhecia como também àquelas que
sabia que não tinha qualquer forma de contato, mas que poderiam, também, se
igualarem em conquistas e direitos voltados à cidadania e à coletividade
enquanto cidadãos. Percebia tão cedo o direito como condição de vida, algo que parecia
tão simples, porém sempre buscava explicações para o distanciamento entre o que
queria e a dura realidade de violência nas famílias, de fome e de vida indigna
a muitos seres humanos. Dessemelhanças evidentes e um grande sonho
efervescente.
De um lápis à moradia,
do lazer ao trabalho, das dificuldades em frequentar a escola ao cuidar da casa
e dos irmãos. Um episódio marcante, entre tantos outros, foi o pé enfaixado
- nem tão bem enfaixado assim -, mas que
escondia a triste realidade em ter a vestimenta básica. Assim ia para a escola,
muitos fatores que se estabeleciam, mas que não deixavam os sonhos e as vontades
de lado.
A menina cresceu. Na
adolescência o incentivo do professor a fez se apaixonar, ainda mais, por
assuntos do curso de Direito, nasceu uma grande inspiração e ideias que se
fortaleceram com o passar dos anos. Com muito empenho passou por todos os
momentos da educação básica, o curso Direito, no ensino superior, continuava
sendo o melhor alvo a conquistar. Inicialmente, devido às dificuldades em
ingressar em uma faculdade seus olhos se elevaram ao curso de formação ao
Magistério, apesar de certa distância entre os objetivos do curso que realmente
queria viu neste curso a oportunidade em estar próxima das pessoas e
principalmente da formação infantil. As dificuldades foram grandes e os quatro
anos de curso só fortaleceram ainda mais a vontade por uma vida mais justa e
mais digna. Mais quatro anos e se formou, também, como pedagoga. Estava
disposta a seguir reclamando pelos seus propósitos. Na escola, agora como
professora Lana, aprendeu muito sobre o relacionamento humano e viu a
importância que o professor tem à formação do aluno. Durante alguns anos
lecionando se deparou com uma grande oportunidade e alegria, algo que sempre
esteve presente em seu percurso e que jamais esqueceu: cursar Direito em uma
faculdade em sua cidade. Passaram-se mais quatro anos, cada disciplina, cada
professor, cada colega de curso teve grande importância. Um professor em especial
foi muito marcante pela ocasião, recordaram com carinho, afinal, Lana, lá em
início de carreira como professora, havia sido sua professora. As ordens se
inverteram.
Lana lembrava de cada
momento da sua infância, das dificuldades, das injustiças e das indiferenças do
passado. Conciliar trabalho e estudos não foi tarefa fácil, mas foi um desafio
a ser vencido, tempo, família e percalços do cotidiano se conciliaram e o grande
dia de formatura finalmente chegou. A agora doutora Lana avistava todos os
propósitos de tempos atrás.
Trabalhos intensos e a
dedicação às ações civis, principalmente aquelas relacionadas à dignidade da
pessoa e da família, mostravam que todos os sentimentos por justiça e igualdade
trouxeram bons resultados, o passado não pode ser mudado, mas com certeza influenciou
muito no presente e trouxe justiça e condições de igualdade para muitas pessoas
atendidas pela então doutora Lana. Estar presente em audiências, em muitos
casos voluntários, em defesa da família, da criança e do adolescente, eram
momentos não somente de trabalho, mas também de grande prazer pessoal e
intransferível. Uma oitiva, realizada no fórum de sua cidade foi extremamente
marcante. Era para ser mais um caso de uma criança injustiçada pela família -
abandono, violência, maus-tratos - e que,
com certeza, a conclusão seria favorável a esta. Os jurados já haviam se
manifestado, na sala o juiz auxiliar já lera todo o desfecho e aguardava apenas
a entrada do juiz titular para proferir a sentença, este entrou à sala e após
todos os cumprimentos e tratos formais parabenizou veemente à advogada da parte
interessada, doutora Lana, pela dedicação e adorável luta à causa da criança e
do adolescente. Abaixo do local onde se encontrava o magistrado, mesmo de um
ponto meio distante, a Doutora Lana acompanhava tudo atentamente, agradeceu à vossa
excelência, porém, diante mais de uma causa triste não percebeu a aparência e
nem os gestos daquele juiz, somente ao final de tudo quando foi cumprimentá-lo
pessoalmente, uma praxe daquele tribunal, é que leu a placa com os dizeres
‘Lucas de Assis dos Santos - Juiz Titular’. Neste momento, parte de toda sua
infância veio à mente, reencontrou ali seu grande companheiro do passado, da
escola e da rua onde morava, o amigo Luquinha, que o destino os distanciou, mas
que os anseios e os objetivos da vida os reaproximou. Em meio a choros,
diferente daquele do passado, ficaram muito felizes com aquele momento. O
sorriso do Luquinha, agora vossa excelência, continuava o mesmo. Muita alegria
das duas partes pelo significativo reencontro.
Deste momento muitas
risadas, alegrias e fortalecimento de amizade se fizeram. Todos aqueles
projetos, ora anteriormente considerados, puderam se tornar reais e beneficiar
muitas pessoas.
O acreditar realmente
pode fazer a diferença.
* Texto baseado em fatos parcialmente reais.
* Dedicado à cônjuge, pelo empenho e dedicação ao longo do curso ora finalizado.
* Texto baseado em fatos parcialmente reais.
* Dedicado à cônjuge, pelo empenho e dedicação ao longo do curso ora finalizado.
Gilberto - 15/11/2019.

Nenhum comentário:
Postar um comentário