O
Artista.
Era
a festa dos sonhos. Dezessete anos e a ideia em cursar uma faculdade se
tornando realidade, verdadeiramente uma mistura de alívio e comemoração por
terminar a educação básica e iniciar a educação superior.
Colegas se abraçando, muita alegria e a partir daquele momento cada um tomaria um
caminho. Desejos e escolhas muito diferentes. Medicina, odontologia, direito,
engenharia, enfim, a felicidade se confirmando como algo muito pessoal e independente
de opiniões.
No
dia seguinte foi correr atrás de documentos e iniciar o curso tão almejado,
desde o início do ensino médio, apesar de jovem, já sabia o que queria e no decorrer das aulas de
arte sempre ficava encantada quando o assunto era pintura da idade média,
quadros coloridos, diferentes autores e uma diversidade de cores me encantavam
e me aproximavam cada vez mais do que sempre quis.
As
aulas se iniciaram e passei a morar em uma república ao lado da faculdade. Tudo
naquele local lembrava muito as diferentes obras que foram vistas em estudos
anteriores, Alberto Magno, Van Der Goes, Leonardo da Vinci, Melchior e muitos
outros artistas que eu tanto admirava. Ninguém os notava tanto quanto eu. As
paredes e cada espaço do prédio de estudos suscitavam arte, um festival de
cores onde tudo era muito agradável. A cada aula as novidades iam aparecendo,
essas descobertas traziam um mundo fantástico que somente a arte pode
propiciar. Fora das paredes da faculdade tudo se dava em razão dos estudos, até
o local onde escolhi para morar, juntamente com mais oito amigas era muito
acolhedor, uma grande casa com enormes paredes, corredores largos com muita claridade
e um ambiente individual para cada uma de nós. As festas e as visitas eram práticas
comuns entre todos os estudantes, um momento de conversas e de sairmos um pouco
das cobranças e assuntos relacionados aos estudos. Eu já tinha muitos amigos
novos, mas um em especial me chamava a atenção, conversávamos pouco e ele
sempre aparecia quando haviam poucas pessoas na sala. Tinha estatura média,
pouco sorriso no rosto e quando pouco falava as palavras soavam com um belo
sotaque italiano. Bem característico estava sempre vestido com um avental
azul claro e calça escura, nas mãos carregava sempre um par de pincéis.
Olhava-me muito e logo após subia as escadas com acesso ao piso superior onde
ficava o atelier mais antigo e compartilhado por muitos alunos que ali haviam
passado. Algumas vezes subi atrás dele para ver o que iria fazer, afinal não
era comum sempre os mesmos gestos e comportamento. Mas, ao avistá-lo sempre
permanecia parada por alguns minutos apreciando a facilidade e a leveza com que
ele manejava os pincéis sobre um quadro ao fundo da sala, pelas características
parecia a figura humana. Estava sempre na sala, mas nunca o vi deixando a casa
pela porta comum. Era sempre assim, pessoas se divertindo, dançando, discutindo
conteúdos do curso e o quando alguns já tinham deixado o local aparecia o meu
amigo misterioso. Cheguei a perguntar a uma colega sobre ele, mas percebi uma
reposta vaga como se apontasse para outra pessoa, confesso que não entendi nada,
foi como se tivesse apontando para ele, porém, se referindo a outra pessoa. Aliás,
era como se ninguém o notasse.
Foram meses até eu encontrá-lo pela
última vez. Nem parecia aquela pessoa cheia de mistérios. Esboçou um lindo
e longo sorriso e me convidou para ver o seu quadro, agora finalizado, diga-se um lindo
quadro cheio de detalhes e com os traços mais perfeitos que eu jamais poderia
imaginar. Meu rosto estava ali. Acima o título ‘Retrato de uma Jovem’ e;
abaixo, ao final da tela, a assinatura ‘Botticelli’, 1475. Um quadro
renascentista remodelado em minha homenagem.
Neste dia me esforcei, mas novamente
não consegui vê-lo deixar o local. A partir daquele momento somente o quadro
passou a ser realidade e a ser exposto na parede onde todos podiam ver e
admirar. Até perguntavam-se quem o criou. O artista eu já não via mais.
Gilberto - 05/07/15.
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