Lugar
de Felicidade.
Andava por vários
lugares até chegar àquele local. Um andarilho que adorava conhecer pessoas e
viver momentos diferentes.
Vendo de longe, aquele
parecia ser um espaço de alegria, crianças brincavam e sorrisos fluíam por todos os cantos. Corriam, pulavam
e se escondiam entre grandes árvores. A visão do alto do morro revelava um
ambiente onde se brincava sempre, vozes infantis pareciam esconder algo, por
trás de tantos risos notavam-se certas angústias e demasiada busca de alguma
coisa que ficou para trás. Crianças felizes, mas que deixavam no olhar alguma
marca de sentimentos e de alguma coisa que ainda estava por vir, alguns meninos
eram pura alegria e ali pareciam estar em casa.
Buscava um espaço,
estava longe de casa e não havia um local onde pudesse me estabelecer, não
queria viver um universo de repetições, por isso, praticamente, toda semana
conhecia e dormia em ambientes diferentes. Mas, aquele lugar me encantou, fez
transparecer uma necessidade de permanecer por mais tempo, algo que me tocou,
claramente os sorrisos, a essencialidade do momento e a ansiedade exposta em
cada face daquelas crianças. Chegando ao portão um cartaz com letras bem fortes
pedia por pessoas que ajudassem voluntariamente nas atividades oferecidas, fui
informado que poucos se ofereciam, foi o suficiente para se iniciar ali uma
belíssima relação entre um caminhante e uma turma bastante animada. Passado
alguns dias notei o quanto, de fato, fiquei apegado, jamais havia ficado tantos
dias em um só local. Conheci melhor cada um, eram dezoito crianças entre nove e
quatorze anos que se divertiam em todos os momentos nas mais variadas
brincadeiras, era esta a parte que eu mais gostava e a razão de estar naquele
local desenvolvendo certas habilidades.
Tinham momentos sérios também, estudos de textos, cálculos e leitura,
algo como uma espécie de reforço às atividades que eram desenvolvidas na escola
que ficava um pouco distante e para onde as crianças iam e vinham, sempre
alegres. Aliás, essa característica foi a que cativou meus sentimentos e marcou
o momento quando ali cheguei, o sorriso do Felipe, um garoto franzino e que,
mesmo fora de casa, demonstrava satisfação e gratidão em suas ações. Outro fato
marcante foi um que ocorreu exatamente quando cheguei próximo ao portão quando
uma criança de, aparentemente, sete anos era puxada pelo braço e relutava em
passar pelo portão, Júlio era seu nome. Fiquei somente observando quando um
homem, com aparência e gestos juvenis, surgiu. Parecia acostumado com cenas
como aquela e falou com o garoto mais velho, também com idade de criança,
talvez entre quinze e no máximo dezessete anos de idade, que deixasse o menino
mais novo, pois o acompanharia à parte interna. Júlio o acompanhou, mas sempre
com o olhar para trás pedindo pelo outro que o trouxe, este outro por sua vez
saiu rapidamente, quase correndo, somente consegui reparar que também estava
triste e que sua orelha trazia um traço marcante e bem parecido com uma
cicatriz provocada por um grande corte. Aproveitei o momento e entrei junto, um
pouco mais para trás, para me informar sobre qual tipo de ajuda precisavam.
Fiquei muito satisfeito ao ouvir que precisavam de pessoas para passar algum
tempo brincando e auxiliando por algumas horas as crianças do local. Era tudo o
que eu queria. Com bastante entusiasmo e momentos agradáveis o tempo foi
passando e cada vez mais aumentado o vínculo afetivo pelo local e por cada um
que ali vivia.
Tempo passando e me
pegando em lembranças. Alguns já se foram, outros chegaram e mantenho o mesmo
carinho desde a chegada. Tornei-me uma espécie de paizão para as crianças.
Melhor, bem como todos se sentem, um amigo comum que compartilha emoções, dá
bronca, orienta e recebe a todos para uma gostosa conversa sobre os mais
diferentes assuntos. Júlio ainda permanece no local, por vezes o sinto meio
triste, mas não chora mais como quando chegou e nem olha mais para o portão
buscando pelo olhar de alguém que o deixou.
Nos dias de festas é que
noto como se sentem contentes. Muitas brincadeiras e uma vontade de viver cada
momento como se não fossem acabar. Correria, risadas e uma cumplicidade que
somente a verdadeira amizade pode fortalecer, são muito dependentes e talvez
seja por isso que se apegam tanto em tudo o que desenvolvem nestes momentos. As
melhores das comemorações são sempre as de aniversário. Gostam tanto que querem
sempre ficar um tempo a mais, é no olhar de cada um que os parabéns se criam e
o melhor presente é estar vivendo tudo aquilo com os amigos e com as pessoas
que tanto cuidam, carinhosamente, da vida de cada um.
Já se passaram dez anos
desde a minha chegada. Muitos bons momentos e uma aprendizagem que me fez não
querer sair mais. Aqueles meninos que vi pequeninos estão quase adultos, muitos
com estatura e físico maiores do que os meus. Já não são tão crianças e
continuam sempre alegres. Poucos foram embora e posso afirmar que com muita
tristeza. Muitos nem querem ir, se bem
que sempre sonham com lugares novos, com a possibilidade de uma família e de
como seria viver em outro local.
Pela manhã, como de
costume, acordo sempre as seis horas. Gosto de ver o café sendo preparado e a
expectativa daqueles que já estão acordados esperando o primeiro alimento do
dia. Especificamente naquela segunda-feira levantei, me aprontei e fui até o
portão buscar as correspondências. Alguns meninos perto da porta, do lado do
fora, aguardavam outros para irem à escola. Já no portão percebi um carro
parando bem em frente, era um carro muito lindo, de vidros escuros, sem nenhuma
visão interna e daqueles desejados por qualquer um. A porta se abriu e deu
visão a um homem bem vestido que, a princípio, rodeou o olhar por toda a frente
do estabelecimento e parecia buscar algo no passado. Estranhei tudo aquilo e me
perguntava o que alguém de tamanha aparência buscava ali. O homem finalmente
fechou a porta do carro e chegando ao portão me perguntou se era ali um local
onde a tempos atrás se deixava crianças, falei que sim e ele disse que tudo
estava diferente e que procurava por uma criança que ali havia ficado. Era
difícil imaginar como alguém tão elegante e com bela aparência procurava naquele local. Até mesmo os garotos próximos
à porta olhavam aquela figura que, ao chegar, mais perto dos garotos gritou
alto chamando o nome de Júlio. Fiquei assustado. Logo o choro tomou conta do
homem e Júlio, também sem entender muito o acontecido, começou a chorar. Pelos
olhares trocados agora tudo ficou claro, voltei ao passado e aquela despedida
no portão, quando ali cheguei anos atrás, tudo igual, mas em condições
diferentes. O corte na orelha ainda era o mesmo.
Abraços trocados e de
novo despedida, porém agora ao contrário, o homem disse a Júlio que havia
falado que voltaria e que nunca havia esquecido o irmão mais novo, que
conseguiu grande riqueza pelos estudos e pelo trabalho alcançado. Júlio se foi
e ficou para trás uma história marcante em um lugar simples, mas de muita
felicidade.
Gilberto - 03/08/16.
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