quarta-feira, 3 de agosto de 2016

LUGAR DE FELICIDADE

Lugar de Felicidade.

                        Andava por vários lugares até chegar àquele local. Um andarilho que adorava conhecer pessoas e viver momentos diferentes.
                         Vendo de longe, aquele parecia ser um espaço de alegria, crianças brincavam e sorrisos  fluíam por todos os cantos. Corriam, pulavam e se escondiam entre grandes árvores. A visão do alto do morro revelava um ambiente onde se brincava sempre, vozes infantis pareciam esconder algo, por trás de tantos risos notavam-se certas angústias e demasiada busca de alguma coisa que ficou para trás. Crianças felizes, mas que deixavam no olhar alguma marca de sentimentos e de alguma coisa que ainda estava por vir, alguns meninos eram pura alegria e ali pareciam estar em casa.
                        Buscava um espaço, estava longe de casa e não havia um local onde pudesse me estabelecer, não queria viver um universo de repetições, por isso, praticamente, toda semana conhecia e dormia em ambientes diferentes. Mas, aquele lugar me encantou, fez transparecer uma necessidade de permanecer por mais tempo, algo que me tocou, claramente os sorrisos, a essencialidade do momento e a ansiedade exposta em cada face daquelas crianças. Chegando ao portão um cartaz com letras bem fortes pedia por pessoas que ajudassem voluntariamente nas atividades oferecidas, fui informado que poucos se ofereciam, foi o suficiente para se iniciar ali uma belíssima relação entre um caminhante e uma turma bastante animada. Passado alguns dias notei o quanto, de fato, fiquei apegado, jamais havia ficado tantos dias em um só local. Conheci melhor cada um, eram dezoito crianças entre nove e quatorze anos que se divertiam em todos os momentos nas mais variadas brincadeiras, era esta a parte que eu mais gostava e a razão de estar naquele local desenvolvendo certas habilidades.  Tinham momentos sérios também, estudos de textos, cálculos e leitura, algo como uma espécie de reforço às atividades que eram desenvolvidas na escola que ficava um pouco distante e para onde as crianças iam e vinham, sempre alegres. Aliás, essa característica foi a que cativou meus sentimentos e marcou o momento quando ali cheguei, o sorriso do Felipe, um garoto franzino e que, mesmo fora de casa, demonstrava satisfação e gratidão em suas ações. Outro fato marcante foi um que ocorreu exatamente quando cheguei próximo ao portão quando uma criança de, aparentemente, sete anos era puxada pelo braço e relutava em passar pelo portão, Júlio era seu nome. Fiquei somente observando quando um homem, com aparência e gestos juvenis, surgiu. Parecia acostumado com cenas como aquela e falou com o garoto mais velho, também com idade de criança, talvez entre quinze e no máximo dezessete anos de idade, que deixasse o menino mais novo, pois o acompanharia à parte interna. Júlio o acompanhou, mas sempre com o olhar para trás pedindo pelo outro que o trouxe, este outro por sua vez saiu rapidamente, quase correndo, somente consegui reparar que também estava triste e que sua orelha trazia um traço marcante e bem parecido com uma cicatriz provocada por um grande corte. Aproveitei o momento e entrei junto, um pouco mais para trás, para me informar sobre qual tipo de ajuda precisavam. Fiquei muito satisfeito ao ouvir que precisavam de pessoas para passar algum tempo brincando e auxiliando por algumas horas as crianças do local. Era tudo o que eu queria. Com bastante entusiasmo e momentos agradáveis o tempo foi passando e cada vez mais aumentado o vínculo afetivo pelo local e por cada um que ali vivia.
                  Tempo passando e me pegando em lembranças. Alguns já se foram, outros chegaram e mantenho o mesmo carinho desde a chegada. Tornei-me uma espécie de paizão para as crianças. Melhor, bem como todos se sentem, um amigo comum que compartilha emoções, dá bronca, orienta e recebe a todos para uma gostosa conversa sobre os mais diferentes assuntos. Júlio ainda permanece no local, por vezes o sinto meio triste, mas não chora mais como quando chegou e nem olha mais para o portão buscando pelo olhar de alguém que o deixou.
                     Nos dias de festas é que noto como se sentem contentes. Muitas brincadeiras e uma vontade de viver cada momento como se não fossem acabar. Correria, risadas e uma cumplicidade que somente a verdadeira amizade pode fortalecer, são muito dependentes e talvez seja por isso que se apegam tanto em tudo o que desenvolvem nestes momentos. As melhores das comemorações são sempre as de aniversário. Gostam tanto que querem sempre ficar um tempo a mais, é no olhar de cada um que os parabéns se criam e o melhor presente é estar vivendo tudo aquilo com os amigos e com as pessoas que tanto cuidam, carinhosamente, da vida de cada um.            
                  Já se passaram dez anos desde a minha chegada. Muitos bons momentos e uma aprendizagem que me fez não querer sair mais. Aqueles meninos que vi pequeninos estão quase adultos, muitos com estatura e físico maiores do que os meus. Já não são tão crianças e continuam sempre alegres. Poucos foram embora e posso afirmar que com muita tristeza.  Muitos nem querem ir, se bem que sempre sonham com lugares novos, com a possibilidade de uma família e de como seria viver em outro local.
                    Pela manhã, como de costume, acordo sempre as seis horas. Gosto de ver o café sendo preparado e a expectativa daqueles que já estão acordados esperando o primeiro alimento do dia. Especificamente naquela segunda-feira levantei, me aprontei e fui até o portão buscar as correspondências. Alguns meninos perto da porta, do lado do fora, aguardavam outros para irem à escola. Já no portão percebi um carro parando bem em frente, era um carro muito lindo, de vidros escuros, sem nenhuma visão interna e daqueles desejados por qualquer um. A porta se abriu e deu visão a um homem bem vestido que, a princípio, rodeou o olhar por toda a frente do estabelecimento e parecia buscar algo no passado. Estranhei tudo aquilo e me perguntava o que alguém de tamanha aparência buscava ali. O homem finalmente fechou a porta do carro e chegando ao portão me perguntou se era ali um local onde a tempos atrás se deixava crianças, falei que sim e ele disse que tudo estava diferente e que procurava por uma criança que ali havia ficado. Era difícil imaginar como alguém tão elegante e com bela aparência  procurava naquele local. Até mesmo os garotos próximos à porta olhavam aquela figura que, ao chegar, mais perto dos garotos gritou alto chamando o nome de Júlio. Fiquei assustado. Logo o choro tomou conta do homem e Júlio, também sem entender muito o acontecido, começou a chorar. Pelos olhares trocados agora tudo ficou claro, voltei ao passado e aquela despedida no portão, quando ali cheguei anos atrás, tudo igual, mas em condições diferentes. O corte na orelha ainda era o mesmo.
                   Abraços trocados e de novo despedida, porém agora ao contrário, o homem disse a Júlio que havia falado que voltaria e que nunca havia esquecido o irmão mais novo, que conseguiu grande riqueza pelos estudos e pelo trabalho alcançado. Júlio se foi e ficou para trás uma história marcante em um lugar simples, mas de muita felicidade.

Gilberto - 03/08/16.

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