sábado, 21 de janeiro de 2017

PÉS GRANDES NA BELA ILHA



Pés Grandes na Bela Ilha

                        Uma Linda noite. Muita luz, festa e pessoas felizes pelas ruas. Lembro que a chegada àquele local era exatamente assim.
                       Toda aquela alegria e movimentação traziam uma combinação perfeita para aquele dia, véspera de feriado e de uma grande comemoração que viria no dia seguinte em várias partes da Ilha Verde, muito valorizada pelos antigos jesuítas e convertida em um importante espaço social, de turismo e de estudos. Aliás, foi o estudo que me levou a esse destino através de tudo que aprendia a cada aula vista na faculdade de ciências sociais em meu país. Da cultura conhecia pouco, mas das histórias sempre me encantavam aquelas de muitos mistérios que são conhecidas desde a época da ocupação portuguesa.
                        Era dia de festa e a cidade estava cheia de gente. O primeiro dia, dos quatro em que fiquei hospedado em um hotel, próximo a um antigo convento, foi marcado pela curiosidade, pela pressa em fazer amizades e pela desconfiança que era enxergada no comportamento das pessoas que pareciam sempre reservadas e pouco falavam, mas por vezes achava que era devido ao meu estado de estrangeiro e devido a tantas perguntas que prevaleciam em meus diálogos. Em relação a esses diálogos ainda bem que boa parte daquelas pessoas falava e entendia a minha língua, pois sair de São Paulo diretamente para Macau chegou a dar uma ponta de angústia por não saber o que ali, exatamente, me aguardava. Este primeiro dia passou com esperança às expectativas e vontade de aprofundar mais ainda meus estudos.
                        No segundo dia andei bastante pelo local, a colina era muito grande e foi preciso muito tempo para percorrer apenas parte da bela terra, explorei bastante as montanhas, antigas construções e os portos tão utilizados por antigos navegantes e mantidos até os dias atuais. Ao sul da Ilha pude ouvir várias histórias misteriosas, de tempos antigos e também algumas atuais, as pessoas do grupo ao qual eu estava diziam que não acreditavam e que tudo aquilo eram relatos que passavam e prosseguiam através do tempo. Eu preferia ser cauteloso nas análises, algumas dessas histórias pareciam tão reais que assustavam, como a do monstro do mar de duas cabeças, da lenda do navio cheio de fantasmas que sobrevoava pela Ilha de dez em dez anos e ainda da história do monstro dos pés grandes, aliás, esta foi a que mais me impressionou. No retorno ao hotel estava tão cansado que fui rapidamente dormir.
                        A luz do dia pareceu chegar mais cedo daquele lado, talvez por isso, no terceiro dia, acordei com sensação de cansaço, parecia que havia carregado muito peso, como os estivadores locais, porém animado para outros momentos e novos conhecimentos. No café silêncio e momentos de estranheza, as pessoas falavam baixo e sem parar, demonstravam receios, pronunciavam, mediante as diferentes línguas, uma ocorrência da noite. Comentavam sem parar sobre um ser diferente que algumas pessoas juravam ter visto pelas ruas, algumas fotografias até foram tiradas, mas refletiam somente uma grande imagem escura e disforme, o que mais chamava a atenção nas falas eram os enormes pés, bem maiores do que aqueles de uma pessoa normal, era como se uma pessoa com medidas normais tivesse os pés três vezes maior do que o comum.
                        O grupo de estudos saiu para as tarefas daquele dia e por horas percorreu por diferentes caminhos e áreas macaenses, aliás, somente à luz do dia é que pude, realmente, notar ainda mais as belezas e as antiguidades de Macau.  O que mais se ouviu no percurso foi a história do pé grande que apareceu pela região. Muita discussão e um medo que pairava no ar. Entre ruas e ladeiras exploramos cada ponto de parada e conhecemos bem mais da história local. Por grandes estradas e avenidas, igrejas e diferentes monumentos, típicos da região, o sol foi se pondo e todos pegaram o caminho de volta à hospedagem. Eu mais cansado ainda.
                        Nos dias que se seguiram, até a partida de volta para casa, um grande mistério se fez, não sei por que, mas a sensação que tenho hoje é que, praticamente, foram dois dias em um. Da noite anterior lembro somente de jantar e cair na cama, a partir dali somente vestígios de uma cidade noturna com pessoas correndo de um lado para o outro, nunca via ninguém atrás de mim, era eu que seguia atrás delas, em certas horas as ruas estavam vazias e já não se enxergava qualquer pessoa. As palavras que, vagamente, mais lembro eram: monstro, enorme, socorro. Somente não entendia os motivos pelos quais não conseguia lembrar os assuntos que me levaram àquele cenário, tudo sempre estava vago em minha memória. Nada sobre os estudos em minha mente e tudo parecia ter passado muito rápido. De fato, duas noites em uma.
                        Ao final do quarto e derradeiro dia é que as coisas foram se esclarecendo. Não sei como voltei ao meu quarto nas noites anteriores, como sempre estava sozinho deixava minhas roupas bagunçadas e naquele momento, especificamente, notei que algumas - quatro camisas e quatro calças, especificamente - estavam muito amassadas, rasgadas. Não encontrava um par de sapatos dos quatro que eu havia levado, minha salvação foi uma pequena sacola reserva que havia levado, dentro desta uma tinha uma troca de roupa para alguma emergência e ainda um único par de sapatos. Foi bastante providencial.
                        Faltavam poucas horas para meu embarque de volta, aproveitei para ajeitar algumas coisas e fui para o salão de refeição, pois a noite logo chegaria.  Aquelas roupas rasgadas e irreconhecíveis ficaram em um saco que foi para o lixo, até pensei em perguntar para as camareiras sobre elas, mas não achei importante e preferi descartá-las. Já no salão o assunto voltou a ser o misterioso monstro, as imagens que tinham e comentavam eram as mesmas, uma grande mancha escura, sem forma e com pés enormes. Como saber direito daquela história se não tinha nenhuma lembrança? Sei que aquelas pessoas estavam ali e comentavam sobre o assunto com muita veracidade na voz. Mais intrigante era saber que o mesmo local por onde todos estavam e frequentavam era o mesmo onde eu também estava e não conseguia ter a mesma recordação que tantos afirmavam com convicção e clareza. Sempre diziam que o monstro, ao mesmo tempo em que ia ao encontro das pessoas, estava longe de todos e esboçava reação de medo. Era amedrontador. Entre um comentário e outro percebi que havia um plano para capturar esse tal pezão, alguns grupos tinham comprado enormes redes e esperariam em locais adequados pelas redondezas para tentar surpreender o monstro.
                        O tempo foi passando e a hora de ir embora chegou, voltei ao quarto ainda impressionado com tudo o que tinha ouvido e acreditando que se tratava apenas de comentários, uma história que criaram e se propagou, assim como aquelas antigas. Já dentro do quarto tive que correr para arrumar as malas, pois nem percebi que de tanto ouvir as pessoas as horas se passaram e, caso eu não me apressasse, iria perder o ônibus que me levaria de volta ao porto da cidade para a partida do navio que levaria todo o grupo de volta para casa. Arrumei uma mala e notei que outra ficou pela metade, quase vazia, me lembro de quando cheguei e que as duas estavam cheias. Havia ainda uma sacola de mão. Olhei novamente pelo quarto, por dentro dos armários e estava tudo certo com a bagagem. Já com as malas nas mãos e perto da porta para deixar o quarto visualizei, em baixo da cama, a ponta de um cadarço meio que escondido, puxei o mesmo e levei um susto quando junto com ele apareceu o esboço de um calçado meio que rasgado, destruído. Com os joelhos no chão abaixei para ver melhor por baixo da cama, quase não havia espaço até o meio, além daquele cadarço pude ver e tirar dali algumas peças de roupas rasgadas e uns sapatos totalmente destruídos, irreconhecíveis, parecia que uma bomba havia sido estourada dentro deles ou que foram muito forçados para serem usados. Mas, alguns detalhes os faziam parecer com os meus, aqueles que, não sei como, haviam desaparecido antes. Rapidamente, para não perder a hora do embarque, coloquei-os no espaço daquela mala que estava mais vazia, dei uma última olhada pelo o quarto e saí pela porta deixando o local. Já era noite, no transporte até o porto os comentários ainda eram sobre o pezão, pelas paradas se notava que a mobilização para pegar o monstro estava grande. Estiveram bem perto, mas neste momento eu sabia que jamais o pegariam.
                        Não sei por que, mas eu estava bem mais tranquilo devido aos últimos acontecimentos no quarto. Os vestígios estavam em uma das minhas malas e me convenciam que os meus pés é que rasgaram aqueles sapatos e me transformaram no monstro dos pés grandes.
                        Macau ficou para trás com suas luzes, belezas e histórias que tanto me aproximaram da realidade.

Gilberto - 21/01/17.

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