Pés
Grandes na Bela Ilha
Uma Linda noite. Muita
luz, festa e pessoas felizes pelas ruas. Lembro que a chegada àquele local era
exatamente assim.
Toda aquela alegria e
movimentação traziam uma combinação perfeita para aquele dia, véspera de
feriado e de uma grande comemoração que viria no dia seguinte em várias partes
da Ilha Verde, muito valorizada pelos antigos jesuítas e convertida em um
importante espaço social, de turismo e de estudos. Aliás, foi o estudo que me
levou a esse destino através de tudo que aprendia a cada aula vista na
faculdade de ciências sociais em meu país. Da cultura conhecia pouco, mas das
histórias sempre me encantavam aquelas de muitos mistérios que são conhecidas
desde a época da ocupação portuguesa.
Era dia de festa e a
cidade estava cheia de gente. O primeiro dia, dos quatro em que fiquei
hospedado em um hotel, próximo a um antigo convento, foi marcado pela
curiosidade, pela pressa em fazer amizades e pela desconfiança que era
enxergada no comportamento das pessoas que pareciam sempre reservadas e pouco
falavam, mas por vezes achava que era devido ao meu estado de estrangeiro e
devido a tantas perguntas que prevaleciam em meus diálogos. Em relação a esses
diálogos ainda bem que boa parte daquelas pessoas falava e entendia a minha
língua, pois sair de São Paulo diretamente para Macau chegou a dar uma ponta de
angústia por não saber o que ali, exatamente, me aguardava. Este primeiro dia
passou com esperança às expectativas e vontade de aprofundar mais ainda meus
estudos.
No segundo dia andei
bastante pelo local, a colina era muito grande e foi preciso muito tempo para
percorrer apenas parte da bela terra, explorei bastante as montanhas, antigas
construções e os portos tão utilizados por antigos navegantes e mantidos até os
dias atuais. Ao sul da Ilha pude ouvir várias histórias misteriosas, de tempos
antigos e também algumas atuais, as pessoas do grupo ao qual eu estava diziam
que não acreditavam e que tudo aquilo eram relatos que passavam e prosseguiam através
do tempo. Eu preferia ser cauteloso nas análises, algumas dessas histórias
pareciam tão reais que assustavam, como a do monstro do mar de duas cabeças, da
lenda do navio cheio de fantasmas que sobrevoava pela Ilha de dez em dez anos e
ainda da história do monstro dos pés grandes, aliás, esta foi a que mais me
impressionou. No retorno ao hotel estava tão cansado que fui rapidamente
dormir.
A luz do dia pareceu chegar
mais cedo daquele lado, talvez por isso, no terceiro dia, acordei com sensação
de cansaço, parecia que havia carregado muito peso, como os estivadores locais,
porém animado para outros momentos e novos conhecimentos. No café silêncio e
momentos de estranheza, as pessoas falavam baixo e sem parar, demonstravam receios,
pronunciavam, mediante as diferentes línguas, uma ocorrência da noite. Comentavam
sem parar sobre um ser diferente que algumas pessoas juravam ter visto pelas
ruas, algumas fotografias até foram tiradas, mas refletiam somente uma grande
imagem escura e disforme, o que mais chamava a atenção nas falas eram os
enormes pés, bem maiores do que aqueles de uma pessoa normal, era como se uma
pessoa com medidas normais tivesse os pés três vezes maior do que o comum.
O grupo de estudos saiu para
as tarefas daquele dia e por horas percorreu por diferentes caminhos e áreas
macaenses, aliás, somente à luz do dia é que pude, realmente, notar ainda mais
as belezas e as antiguidades de Macau. O
que mais se ouviu no percurso foi a história do pé grande que apareceu pela
região. Muita discussão e um medo que pairava no ar. Entre ruas e ladeiras
exploramos cada ponto de parada e conhecemos bem mais da história local. Por
grandes estradas e avenidas, igrejas e diferentes monumentos, típicos da
região, o sol foi se pondo e todos pegaram o caminho de volta à hospedagem. Eu
mais cansado ainda.
Nos dias que se seguiram,
até a partida de volta para casa, um grande mistério se fez, não sei por que,
mas a sensação que tenho hoje é que, praticamente, foram dois dias em um. Da
noite anterior lembro somente de jantar e cair na cama, a partir dali somente
vestígios de uma cidade noturna com pessoas correndo de um lado para o outro,
nunca via ninguém atrás de mim, era eu que seguia atrás delas, em certas horas
as ruas estavam vazias e já não se enxergava qualquer pessoa. As palavras que,
vagamente, mais lembro eram: monstro, enorme, socorro. Somente não entendia os
motivos pelos quais não conseguia lembrar os assuntos que me levaram àquele
cenário, tudo sempre estava vago em minha memória. Nada sobre os estudos em
minha mente e tudo parecia ter passado muito rápido. De fato, duas noites em
uma.
Ao final do quarto e
derradeiro dia é que as coisas foram se esclarecendo. Não sei como voltei ao
meu quarto nas noites anteriores, como sempre estava sozinho deixava minhas
roupas bagunçadas e naquele momento, especificamente, notei que algumas -
quatro camisas e quatro calças, especificamente - estavam muito amassadas, rasgadas.
Não encontrava um par de sapatos dos quatro que eu havia levado, minha salvação
foi uma pequena sacola reserva que havia levado, dentro desta uma tinha uma
troca de roupa para alguma emergência e ainda um único par de sapatos. Foi
bastante providencial.
Faltavam poucas horas
para meu embarque de volta, aproveitei para ajeitar algumas coisas e fui para o
salão de refeição, pois a noite logo chegaria. Aquelas roupas rasgadas e irreconhecíveis
ficaram em um saco que foi para o lixo, até pensei em perguntar para as
camareiras sobre elas, mas não achei importante e preferi descartá-las. Já no
salão o assunto voltou a ser o misterioso monstro, as imagens que tinham e
comentavam eram as mesmas, uma grande mancha escura, sem forma e com pés
enormes. Como saber direito daquela história se não tinha nenhuma lembrança?
Sei que aquelas pessoas estavam ali e comentavam sobre o assunto com muita
veracidade na voz. Mais intrigante era saber que o mesmo local por onde todos
estavam e frequentavam era o mesmo onde eu também estava e não conseguia ter a
mesma recordação que tantos afirmavam com convicção e clareza. Sempre diziam
que o monstro, ao mesmo tempo em que ia ao encontro das pessoas, estava longe
de todos e esboçava reação de medo. Era amedrontador. Entre um comentário e outro
percebi que havia um plano para capturar esse tal pezão, alguns grupos tinham comprado
enormes redes e esperariam em locais adequados pelas redondezas para tentar
surpreender o monstro.
O tempo foi passando e a
hora de ir embora chegou, voltei ao quarto ainda impressionado com tudo o que
tinha ouvido e acreditando que se tratava apenas de comentários, uma história
que criaram e se propagou, assim como aquelas antigas. Já dentro do quarto tive
que correr para arrumar as malas, pois nem percebi que de tanto ouvir as
pessoas as horas se passaram e, caso eu não me apressasse, iria perder o ônibus
que me levaria de volta ao porto da cidade para a partida do navio que levaria
todo o grupo de volta para casa. Arrumei uma mala e notei que outra ficou pela
metade, quase vazia, me lembro de quando cheguei e que as duas estavam cheias.
Havia ainda uma sacola de mão. Olhei novamente pelo quarto, por dentro dos
armários e estava tudo certo com a bagagem. Já com as malas nas mãos e perto da
porta para deixar o quarto visualizei, em baixo da cama, a ponta de um cadarço
meio que escondido, puxei o mesmo e levei um susto quando junto com ele
apareceu o esboço de um calçado meio que rasgado, destruído. Com os joelhos no
chão abaixei para ver melhor por baixo da cama, quase não havia espaço até o
meio, além daquele cadarço pude ver e tirar dali algumas peças de roupas
rasgadas e uns sapatos totalmente destruídos, irreconhecíveis, parecia que uma
bomba havia sido estourada dentro deles ou que foram muito forçados para serem
usados. Mas, alguns detalhes os faziam parecer com os meus, aqueles que, não
sei como, haviam desaparecido antes. Rapidamente, para não perder a hora do
embarque, coloquei-os no espaço daquela mala que estava mais vazia, dei uma
última olhada pelo o quarto e saí pela porta deixando o local. Já era noite, no
transporte até o porto os comentários ainda eram sobre o pezão, pelas paradas se
notava que a mobilização para pegar o monstro estava grande. Estiveram bem
perto, mas neste momento eu sabia que jamais o pegariam.
Não sei por que, mas eu
estava bem mais tranquilo devido aos últimos acontecimentos no quarto. Os
vestígios estavam em uma das minhas malas e me convenciam que os meus pés é que
rasgaram aqueles sapatos e me transformaram no monstro dos pés grandes.
Macau ficou para trás
com suas luzes, belezas e histórias que tanto me aproximaram da
realidade.
Gilberto - 21/01/17.
Gilberto - 21/01/17.
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